Guria do interior


Não gostava de trânsito, preferia o silêncio.

Não queria ficar no shopping em dias chuvosos, nem passar mais de uma hora no trânsito pra chegar em algum lugar.

Achava que gostava de cidade grande, de vida agitada e de ter sempre por perto aquelas coisas legais tipo cinema e shows e tudo mais.. Descobriu que não, que ela gostava mesmo era do barulho da chuva, do cheiro da terra molhada e da vizinha que sempre dizia bom dia, mesmo nos dias que ela não queria ver ninguém.

Sabe que tudo tem um propósito, sabe que esse foi o jeito de viver pertinho de quem ela ama, mas não perto de todos que ela ama, afinal nem tudo pode ser seu.

Agora entende o que é amar o lugar de onde veio, com todas as forças.

Sabe bem o que é saudade, da mãe, do pai, do sotaque.

Entende que os outros podem achar aqui o melhor, mas eles não sabem de verdade qual é o melhor lugar do mundo, porque esse lugar só tem significado pra ela.

Adorava saber exatamente o endereço de algum lugar, gostava da sensação de ter a consciência exata do tamanho do lugar que vive.

Queria encontrar um conhecido na rua.

Não sabia o valor das memórias e referências da sua vida até ficar longe do cenário onde cresceu.

Não quer parecer ingrata, mas também não quer mentir sobre gostar de algo que não consegue gostar.

Entende que tudo é diferente, que tudo precisa de tempo pra "se acostumar" mas não tem paciência.

Sonha com todas as forças em um dia voltar, mas sabe que os pequenos defeitos de lá vão permanecer.

Quer construir uma nova página da vida, mas ainda está presa na história e nas lembranças...

Entende que tudo tem seu motivo e talvez mudar tudo seja o caminho pra se tornar alguém melhor.

Agitar as estruturas é o jeito de colocar tudo no lugar novamente.

Vive um dia depois do outro, a única certeza que tem é do que sente hoje, sem expectativas, sem pressa...

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